Fala!, me diz que em tua cidade você é sozinha. Que ninguém sabe teu
nome, que ninguém sabe da tua existência. Me diz que você não tem
ninguém. E que, pior de que ser sozinha, é ser sozinha em minha cidade,
em que tu não conheces ninguém. Me faz feliz dizendo que sou o único a
quem podes recorrer quando o trabalho que tocas recuar do paroxismo da
faina – do que tanto gostas.
Sou
um monstro bom, que se nutre de toda solidão humana, fazendo dela
ímpeto de causar o bem. Minha humildade é minha vaidade, meu lago que
me serve de espelho.
Se eu tivesse a ti como esposa seria, de
firma reconhecida e assinatura em carteira, um poeta. Teria sempre ao
meu lado, para quando a vida retorna à sua vileza, uma musa, a quem
recorrer.
O dia-a-dia é inócuo aos poetas devidamente acompanhados de suas
respectivas musas. O dia-a-dia não ceifa as searas em que o poeta
corre, quando este tenha se anexado a uma musa. As searas prontas à
colheita abstém-se de perecer, e resumem sua poesia a balouçar ás
ordens do vento, da chuva e, sobretudo, do poeta o qual nela põe-se a
correr.
*
Continuas a existir independentemente de toda a
minha crença em tua efetiva existência. E, o que me põe pior – se
quando o meu humor volátil se diz querer assim –, quando penso em tua
inexistência independente: ora!, e o que poderei eu ser diante da
verdade de que: quem garante nossa efetiva existência?
Seremos sonhos?, que sonham um com o outro? Que somos possibilidade e consideração limítrofe de que deus somos nós?
09/05/2005
(De quando J.B. Veio a minha cidade, em auxílio a um homem cego.)
Sentada a canto,
distante, quase segura,
lota o salão.
Se antes vazio, tanto
mais agora.
Faço uso da
escrita
na torcida de não
ser achada:
não há
canto que seja escuro.
Olho todos e deles
debocho.
Outros me notam, notam
o papel, o lápis
e desnotam na
fotografia trás de mim
Num gesto que revela o
desejo de anular o anterior
Não dá,
já notou,
ela já viu,
todos viram!
E desviram,
comentam e são
comentados,
comedidos e
compensados.
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede
sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
Trecho de Tabacaria, Fernando Pessoa.





