Ir ou vir, que diferença? O que muda é o espaço vazio entre os dois pontos e onde você está quando os pronuncia. Por isso lembro do Gil e sua lata que diz o incabível. Nela nada cabe se não o mundo. E nele eu. E em mim este texto que nele nada cabe.
Caberia dizer agora algo bem poético, melhor: devia retomar ao começo de tudo e vir fazendo todo em poesia - mas esta já me escapuliu desde cedo.
Eu mesma já perdi uma vida. Pior!, perco-a sempre, neste instante mesmo, por exemplo.
Quis fugir do mundo, como quem foge devendo. Devo, e muito. E não tenho pago, nem aos poucos. Devo contratos de aluguéis, livros para ler, aulas para nadar, quartos a arrumar, roupas a lavar, dissertações a simular, devo até o próprio dinheiro para viver. Mas por que merda temos nós que dever tanto, será que faço menos ou devo mais que outros?
Não deixaram-me partir para a minha Pasárgada! Pois agora devo mais essa. Me parece um tanto engraçado dever o fugir das dívidas, ainda mais sendo elas todas ilusões criadas por mim mesma. De fato não deveria nada, ou quase nada.
Já que eu não fui, vão vocês, todos vocês, à Pasárgada ou à puta que os pariu! Não importa, apenas sumam. Devo ficar tranqüila aqui mesmo, arrumando o quarto, lendo uns bons livros, dando uma força para minha irmã no contrato lá de casa e passeando com minha prima, mas sem exagerar que no domingo tenho simulado, e este será dissertativo.
Aqui estou na dúvida se escrevo uma prosa ou uns versos. Bem, acho que a situação pede para que as linhas se preencham lá até o fim, onde as letras caem, mas não sem antes estarem seguras de serem acolhidas logo abaixo. Isso me faz pensar se é o começo ou o fim que sustenta um texto. E se pensarmos no caso dos japoneses?
Vamos em prosa mesmo. O caso é o seguinte: num domingo já fim de tarde, entre Augusto dos Anjos, Pessoa e Vinícius passeiam as minhas lembranças. Atrevido surge no meu rosto um sorriso bobo que nem licença sabe pedir. Mas me sei apressada. Paro. Que tal um cigarro? Acendo e dou um trago. Este, mais atrevido ainda que o outro, retruca, a quinta é muito longe.
Cedo! Subo e ligo...
Depois venho escrever, antes um banho. Está frio, mesmo assim lavo o cabelo. Meus pés agora estão gelados e dobrados sobre a cadeira. Os dedos - os das mãos - tocam e destocam os tipos no teclado, que de birra resistem a eles, para em seguida: Back Space, Back Space, Back Space... Que nem o barulho de um relógio, só que bem apressado, como se quisesse compensar o tempo gasto antes na construção daquilo que só foi criado para ter seu tempo compensado. Produzindo um vai e vem ritmado entre quadradinhos, barra e o retângulo. E a este eu novamente apelo. Fine. Da capo!: Back Spaces, agora com o Ctrl.
Me detenho no limbo da tela. Busco na memória o que tava escrito, e... CtrlZ! Assim juntinho, sem toques de relógio a separá-los e aos montes. Ouço um barulho, levanto, é a ligação sendo retrucada. Chega, não conto mais. Dois pontos e fecha parênteses.
-- Alô?
Sobe ao quarto pelo muro.
Eu, no meu canto,
Passo lento,
Deito lépida,
Acordo esperta.
E ele lá, batalha:
A tomar café, se trocar e pegar toalha.
Cotidiano curto,
Já tão breve, nem escuto.
A goteira silenciou
E o vazio já cantou.
Sentada a canto,
distante, quase segura,
lota o salão.
Se antes vazio, tanto
mais agora.
Faço uso da
escrita
na torcida de não
ser achada:
não há
canto que seja escuro.
Olho todos e deles
debocho.
Outros me notam, notam
o papel, o lápis
e desnotam na
fotografia trás de mim
Num gesto que revela o
desejo de anular o anterior
Não dá,
já notou,
ela já viu,
todos viram!
E desviram,
comentam e são
comentados,
comedidos e
compensados.
Na Lapa paulistana já não busco, espero.
Do alto de lá’pra cá
não chega resposta.
Já devia aprender:
da Lapa de lá, nada se traz.
A praça nunca revista,
agora me revisita, atropela
Podia, a praça, ao menos,
digamos, dizer:
Desculpe moça, será que posso?
Me permite?
Mas, não! Ela já veio, vem,
e num sorriso como de quem debocha,
avisa, virá mais vezes.
Crio agora praças próprias,
já em território paulista.
Desdigo as promessas,
acordos e o que mais vier.
Desdigo a rua, a vala, o meio fio,
desdigo o não dizer e uma saudade crua.
Tola nudez, essa mesma,
na qual desbravamos campos de algarrobos
Roubo-lhe então a palavra, calo.
A catástrofe, anunciada.
Nas vielas da Lapa carioca,
busco o que foi para a chapada,
largas planícies, regulares,
imóveis!
Rodo então por Icaraí e nada.
Fim de tarde, sol de julho,
Só resta o cheiro suave
de um sorriso tímido.

É de costume ouvir que na língua portuguesa há uma palavra de impossível tradução. Impossibilidade de reunir numa só palavra de outra língua a mesma sutileza e sensação.
Saudades
Saudades não é apenas sentir falta de alguém ou algo. É padecer e se entregar a essa ausência preenchendo o vazio deixado por ela.
Quando olho minha janela,
vejo através dela outras janelas,
outras vidas,
vidas que eu poderia viver,
silhuetas que talvez seria.
Das possibilidades?
Sou essa que agora escrevo.
Em cada janela que vejo,
de cada apartamento que olho,
me vejo em negativo.
E sou todas as possibilidades
que as janelas não podem ser,
que as pessoas de dentro delas não podem ser
e dos que passam e olham,
ou não passam e nem olham não podem ser.
Me chamo Maria.
Me lanço a todas elas.
Meu lenço, um brocado
meu rosto, um espelho
minha vida, Juliana.





