Depois da curva da
estrada
Tem um pé de araçá
Sinto vir água nos
olhos
Toda vez que passo lá
Sinto o coração
flechado
Cercado de solidão
Penso que deve ser doce
A fruta do coração
Vou contar para o seu
pai
Que você namora
Vou contar pra sua mãe
Que você me ignora
Vou pintar a minha boca
Do vermelho da amora
Que nasce lá no
quintal
Da casa onde você
mora.
(Renato Teixeira)
Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!
É a dor da Força desaproveitada,
O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!
É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que se não realiza...
Da luz que não chegou a ser lampejo...
E é em suma, o subconsciente aí formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!...
(Augusto dos Anjos)
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional...
Drummond
(passeando pelo blog do meu irmãozinho banto, achei esse poema ;)
Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Carlos Drummond de Andrade
De "V Internacional" Maiakóvski, 1922
Eu à poesia só permito uma forma: concisão, precisão das fórmulas matemáticas. Às parlengas poéticas estou acostumado, eu ainda falo versos e não fatos. Porém se eu falo "A" este "a" é uma trombeta-alarma para a humanidade. Se eu falo "B" é uma nova bomba na batalha do homem.
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Metáfora Gilberto Gil, 1982
Uma lata existe para conter algo Mas quando o poeta diz: "Lata" Pode estar querendo dizer o incontível Uma meta existe para ser um alvo Mas quando o poeta diz: "Meta" Pode estar querendo dizer o inatingível Por isso, não se meta a exigir do poeta Que determine o conteúdo em sua lata Na lata do poeta tudonada cabe Pois ao poeta cabe fazer Com que na lata venha caber O incabível Deixe a meta do poeta, não discuta Deixe a sua meta fora da disputa Meta dentro e fora, lata absoluta Deixe-a simplesmente metáfora
Parecemos poucos
e eles, muitos.
Muitos que dizem pouco
e nós, muito para poucos.
Enquanto "muitos" cerram os ouvidos.
Mas em pouco, seremos muito.
Muitos e muitas.
Falando muito
Para muitas
Sem esquecer do pouco
que somos.
E somando, muito.
A raiz é razão vegetal.
Mergulhada na terra faz foz
da folhagem, da flor ao celeste:
vendaval que represa nos ramos
desse algoz esgalhado em coroa.
Contr’oeste rumar seus enganos
— eu reclamo ao medir a milonga
que destoa demais seu compasso
que dimano em Gregório e composto,
não de longa jornada, eu suponho,
ao que passo a versar em vazão
desse oposto que funda no pó
seu grão sonho profuso de céu.
A razão é raiz sideral,
eu sem dó considero ao inverso.
Lumaréu de ramagem no raio,
arraial furioso que luz,
de reverso se lança por ar,
de soslaio disfarça tal farsa,
que reduz seqüestrar o menor
ao se dar do que mais lhe supera.
É desgraça o que segue na estória.
Por melhor que o céu roce no amado
desespera de chama seu ramo
— divisória que o mundo reclama
separado seu céu do chão rente,
nesse gamo partido resseca
nosso drama em poeira carpida
que, carente da brisa, se põe
de rabeca indolente a tocar
a caída cantiga poente,
aquel’onde se sopra cadente,
qual restar de queimada voraz,
penitente lamento do seco,
indecente lamúria da disgra,
já se faz a colheita impossível,
desse pêco entre o fogo e seu feno,
da feliz gradadura vingada
sob crível coberta de solo,
o sereno do pranto da noite
que a folhada enxuga da névoa
e no colo da relva cumula
o que a foice do homem exuma
e relevo-a, homem que sou,
da medula entranhada na terra,
essa suma semântica, amido,
que firmou formação palavreira,
quando s’erra e, por solo, se emite
seu sentido esgalhado à matriz
cumeeira ela alcança e demora
o limite da rima, o ramo,
a raiz.
Ivan Fladek Livius
Para a exposição Os retornos Impossíveis
Fala!, me diz que em tua cidade você é sozinha. Que ninguém sabe teu
nome, que ninguém sabe da tua existência. Me diz que você não tem
ninguém. E que, pior de que ser sozinha, é ser sozinha em minha cidade,
em que tu não conheces ninguém. Me faz feliz dizendo que sou o único a
quem podes recorrer quando o trabalho que tocas recuar do paroxismo da
faina – do que tanto gostas.
Sou
um monstro bom, que se nutre de toda solidão humana, fazendo dela
ímpeto de causar o bem. Minha humildade é minha vaidade, meu lago que
me serve de espelho.
Se eu tivesse a ti como esposa seria, de
firma reconhecida e assinatura em carteira, um poeta. Teria sempre ao
meu lado, para quando a vida retorna à sua vileza, uma musa, a quem
recorrer.
O dia-a-dia é inócuo aos poetas devidamente acompanhados de suas
respectivas musas. O dia-a-dia não ceifa as searas em que o poeta
corre, quando este tenha se anexado a uma musa. As searas prontas à
colheita abstém-se de perecer, e resumem sua poesia a balouçar ás
ordens do vento, da chuva e, sobretudo, do poeta o qual nela põe-se a
correr.
*
Continuas a existir independentemente de toda a
minha crença em tua efetiva existência. E, o que me põe pior – se
quando o meu humor volátil se diz querer assim –, quando penso em tua
inexistência independente: ora!, e o que poderei eu ser diante da
verdade de que: quem garante nossa efetiva existência?
Seremos sonhos?, que sonham um com o outro? Que somos possibilidade e consideração limítrofe de que deus somos nós?
09/05/2005
(De quando J.B. Veio a minha cidade, em auxílio a um homem cego.)
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede
sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
Trecho de Tabacaria, Fernando Pessoa.
A porta cerrada
não abras.
Pode ser que encontres
o que não buscavas
nem esperavas.Na escuridão
pode ser que esbarres
no casal em pé
tentando se amar
apressadamente.Pode ser que a vela
que trazes na mão
te revele, trêmula,
tua escrava nova,
teu dono-marido.Descuidosa, a porta
apenas cerrada
pode te contar
conto que não queres
saber.Drummond
Difícil
ser funcionário
Nesta
segunda-feira.
Eu te telefono,
Carlos
Pedindo
conselho.
Não é
lá fora o dia
Que me deixa
assim,
Cinemas,
avenidas,
E outros
não-fazeres.
É a dor
das coisas,
O luto desta
mesa;
É o
regimento proibindo
Assovios,
versos, flores.
Eu nunca
suspeitara
Tanta roupa
preta;
Tão
pouco essas palavras —
Funcionárias,
sem amor.
Carlos, há
uma máquina
Que nunca
escreve cartas;
Há uma
garrafa de tinta
Que nunca bebeu
álcool.
E os arquivos,
Carlos,
As caixas de
papéis:
Túmulos
para todos
Os tamanhos de
meu corpo.
Não me
sinto correto
De gravata de
cor,
E na cabeça
uma moça
Em forma de
lembrança
Não
encontro a palavra
Que diga a
esses móveis.
Se os pudesse
encarar...
Fazer seu nojo
meu...
Carlos, dessa
náusea
Como colher a
flor?
Eu te telefono,
Carlos,
Pedindo
conselho.
João Cabral de Melo Neto





