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Amora
julianabruce | 30 July, 2008 22:39

Depois da curva da estrada
Tem um pé de araçá
Sinto vir água nos olhos
Toda vez que passo lá

Sinto o coração flechado
Cercado de solidão
Penso que deve ser doce
A fruta do coração

Vou contar para o seu pai
Que você namora
Vou contar pra sua mãe
Que você me ignora

Vou pintar a minha boca
Do vermelho da amora
Que nasce lá no quintal
Da casa onde você mora.

(Renato Teixeira)

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O Lamento das Coisas
julianabruce | 26 May, 2008 15:19

Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!

É a dor da Força desaproveitada,
O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!

É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que se não realiza...
Da luz que não chegou a ser lampejo...

E é em suma, o subconsciente aí formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!...

(Augusto dos Anjos)

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Definitivo?
julianabruce | 21 April, 2008 14:52

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional...

Drummond

 

(passeando pelo blog do meu irmãozinho banto, achei esse poema ;) 

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Quinteto irreverente
julianabruce | 16 January, 2008 16:48

quinteto em cananeia

Quinteto em Cananéia: uma virada
http://quintetoirreverente.wordpress.com

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As Sem-razões do Amor
julianabruce | 30 November, 2007 14:50

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

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Gilberto Gil versus Maiakóvski
julianabruce | 06 November, 2007 15:24
De "V Internacional"
Maiakóvski, 1922
Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.
----
Metáfora
Gilberto Gil, 1982
Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível
Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível
Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora
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Choque
julianabruce | 31 October, 2007 23:21

Parecemos poucos
e eles, muitos.
Muitos que dizem pouco
e nós, muito para poucos.
Enquanto "muitos" cerram os ouvidos.

Mas em pouco, seremos muito.
Muitos e muitas.
Falando muito
Para muitas
Sem esquecer do pouco
que somos.
E somando, muito.

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A raiz é razão vegetal
julianabruce | 10 October, 2007 11:10

A raiz é razão vegetal.
Mergulhada na terra faz foz
da folhagem, da flor ao celeste:
vendaval que represa nos ramos
desse algoz esgalhado em coroa.
Contr’oeste rumar seus enganos
— eu reclamo ao medir a milonga
que destoa demais seu compasso
que dimano em Gregório e composto,
não de longa jornada, eu suponho,
ao que passo a versar em vazão
desse oposto que funda no pó
seu grão sonho profuso de céu.
A razão é raiz sideral,
eu sem dó considero ao inverso.
Lumaréu de ramagem no raio,
arraial furioso que luz,
de reverso se lança por ar,
de soslaio disfarça tal farsa,
que reduz seqüestrar o menor
ao se dar do que mais lhe supera.
É desgraça o que segue na estória.
Por melhor que o céu roce no amado
desespera de chama seu ramo
— divisória que o mundo reclama
separado seu céu do chão rente,
nesse gamo partido resseca
nosso drama em poeira carpida
que, carente da brisa, se põe
de rabeca indolente a tocar
a caída cantiga poente,
aquel’onde se sopra cadente,
qual restar de queimada voraz,
penitente lamento do seco,
indecente lamúria da disgra,
já se faz a colheita impossível,
desse pêco entre o fogo e seu feno,
da feliz gradadura vingada
sob crível coberta de solo,
o sereno do pranto da noite
que a folhada enxuga da névoa
e no colo da relva cumula
o que a foice do homem exuma
e relevo-a, homem que sou,
da medula entranhada na terra,
essa suma semântica, amido,
que firmou formação palavreira,
quando s’erra e, por solo, se emite
seu sentido esgalhado à matriz
cumeeira ela alcança e demora
o limite da rima, o ramo,
a raiz.

Ivan Fladek Livius
Para a exposição Os retornos Impossíveis

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Carta de Daniel
julianabruce | 09 October, 2007 18:03

Fala!, me diz que em tua cidade você é sozinha. Que ninguém sabe teu nome, que ninguém sabe da tua existência. Me diz que você não tem ninguém. E que, pior de que ser sozinha, é ser sozinha em minha cidade, em que tu não conheces ninguém. Me faz feliz dizendo que sou o único a quem podes recorrer quando o trabalho que tocas recuar do paroxismo da faina – do que tanto gostas.

Sou um monstro bom, que se nutre de toda solidão humana, fazendo dela ímpeto de causar o bem. Minha humildade é minha vaidade, meu lago que me serve de espelho.

Se eu tivesse a ti como esposa seria, de firma reconhecida e assinatura em carteira, um poeta. Teria sempre ao meu lado, para quando a vida retorna à sua vileza, uma musa, a quem recorrer.

O dia-a-dia é inócuo aos poetas devidamente acompanhados de suas respectivas musas. O dia-a-dia não ceifa as searas em que o poeta corre, quando este tenha se anexado a uma musa. As searas prontas à colheita abstém-se de perecer, e resumem sua poesia a balouçar ás ordens do vento, da chuva e, sobretudo, do poeta o qual nela põe-se a correr.

*

Continuas a existir independentemente de toda a minha crença em tua efetiva existência. E, o que me põe pior – se quando o meu humor volátil se diz querer assim –, quando penso em tua inexistência independente: ora!, e o que poderei eu ser diante da verdade de que: quem garante nossa efetiva existência?

Seremos sonhos?, que sonham um com o outro? Que somos possibilidade e consideração limítrofe de que deus somos nós?


09/05/2005
(De quando J.B. Veio a minha cidade, em auxílio a um homem cego.)

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Tabacaria
julianabruce | 09 October, 2007 15:58
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede
sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
Trecho de Tabacaria, Fernando Pessoa. 
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Cuidado
julianabruce | 15 September, 2007 22:13

A porta cerrada
não abras.
Pode ser que encontres
o que não buscavas
nem esperavas.

Na escuridão
pode ser que esbarres
no casal em pé
tentando se amar
apressadamente.

Pode ser que a vela
que trazes na mão
te revele, trêmula,
tua escrava nova,
teu dono-marido.

Descuidosa, a porta
apenas cerrada
pode te contar
conto que não queres
saber.

 Drummond

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Para que serve o amor?
julianabruce | 08 August, 2007 01:29

Para que serve o amor, não é mesmo?

Uma das animações mais lindinhas que já vi sobre:

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Difícil ser funcionário
julianabruce | 22 June, 2007 18:01

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

 

João Cabral de Melo Neto

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