« Tua amiga | De quando eu vim ao Rio »
Difícil
ser funcionário
Nesta
segunda-feira.
Eu te telefono,
Carlos
Pedindo
conselho.
Não é
lá fora o dia
Que me deixa
assim,
Cinemas,
avenidas,
E outros
não-fazeres.
É a dor
das coisas,
O luto desta
mesa;
É o
regimento proibindo
Assovios,
versos, flores.
Eu nunca
suspeitara
Tanta roupa
preta;
Tão
pouco essas palavras —
Funcionárias,
sem amor.
Carlos, há
uma máquina
Que nunca
escreve cartas;
Há uma
garrafa de tinta
Que nunca bebeu
álcool.
E os arquivos,
Carlos,
As caixas de
papéis:
Túmulos
para todos
Os tamanhos de
meu corpo.
Não me
sinto correto
De gravata de
cor,
E na cabeça
uma moça
Em forma de
lembrança
Não
encontro a palavra
Que diga a
esses móveis.
Se os pudesse
encarar...
Fazer seu nojo
meu...
Carlos, dessa
náusea
Como colher a
flor?
Eu te telefono,
Carlos,
Pedindo
conselho.
João Cabral de Melo Neto





