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Carta de Daniel
julianabruce | 09 October, 2007 23:03

Fala!, me diz que em tua cidade você é sozinha. Que ninguém sabe teu nome, que ninguém sabe da tua existência. Me diz que você não tem ninguém. E que, pior de que ser sozinha, é ser sozinha em minha cidade, em que tu não conheces ninguém. Me faz feliz dizendo que sou o único a quem podes recorrer quando o trabalho que tocas recuar do paroxismo da faina – do que tanto gostas.

Sou um monstro bom, que se nutre de toda solidão humana, fazendo dela ímpeto de causar o bem. Minha humildade é minha vaidade, meu lago que me serve de espelho.

Se eu tivesse a ti como esposa seria, de firma reconhecida e assinatura em carteira, um poeta. Teria sempre ao meu lado, para quando a vida retorna à sua vileza, uma musa, a quem recorrer.

O dia-a-dia é inócuo aos poetas devidamente acompanhados de suas respectivas musas. O dia-a-dia não ceifa as searas em que o poeta corre, quando este tenha se anexado a uma musa. As searas prontas à colheita abstém-se de perecer, e resumem sua poesia a balouçar ás ordens do vento, da chuva e, sobretudo, do poeta o qual nela põe-se a correr.

*

Continuas a existir independentemente de toda a minha crença em tua efetiva existência. E, o que me põe pior – se quando o meu humor volátil se diz querer assim –, quando penso em tua inexistência independente: ora!, e o que poderei eu ser diante da verdade de que: quem garante nossa efetiva existência?

Seremos sonhos?, que sonham um com o outro? Que somos possibilidade e consideração limítrofe de que deus somos nós?


09/05/2005
(De quando J.B. Veio a minha cidade, em auxílio a um homem cego.)

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