mesmo depois de quebrada lá está ela, nos cacos.
Visto-me, vou até a cozinha.
Chove, é janeiro, está quente.
Junto tudo e remonto na memória da saudade minha xícara.
Já não a reconheço: é outra.
No entanto é a mesma: xícara.
Esquento a água.
Fervo o boldo para o fígado,
fervo a carne para marte,
junto os cacos conforme a xícara.
Juntos, que mais queremos?
Queremos muito: mundo justo,
justa terra que nos cabe,
massa toda nessa rua,
pratos cheios de loucuras.
Queremos juntos.
E juntos os cacos já na xícara tão grudados.
O que hão de querer os cacos todos juntos,
Senão a xícara já no chão?
Mas chove e é janeiro.
Tonita veio se exibir com sua nova xícara de chá. Sem anestesia, vai logo soltando que...
– O amor é como uma xícara de chá que cada dia cai no chão e quebra em pedaços; de madrugada juntamos os pedaços e, com um pouco de umidade e calor, colamos, e a xícara passa a existir de novo. Quem está apaixonado passa a vida receando a chegada do dia terrível em que a xícara ficará tão quebrada que não será mais possível uni-la.
Vai embora assim como veio, reiterando sua recusa a um beijo que, agora mais do que antes, “arranha muito”.
– O amor não é mais que uma balança complicada – Diz Durito – De um lado ficam as coisas boas e, do outro, as ruins. O amor
será tão longo quanto o tempo em que uma balança boa supere a balança
ruim. Quem ama passa a vida acumulando pesos e cuidados na balança boa.
Presta tanta atenção nesse peso que se esquece da balança ruim.Nunca
entenderá como um peso, que apenas seria uma pluma de suspiro, pôde
desequilibrar a balança de forma contundente, definitiva,
irremediável...
Fiquei pensando e fumando. A lua era uma unha nacarada, uma vela inchada de luz no barco da noite. Assomou o seu gume na cúspide da montanha e depois se lançou com tal força que seu passo maltratou não poucas estrelas.
Tudo bem de novo. Feliz ano, oxalá que agora sim seja novo.
Subcomandante insurgente Marcos
23 de dezembro de 1995
- Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
- Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
- Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
- Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
- Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
- Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
- Grandes são os desertos, minha alma!
- Grandes são os desertos.
- Não tirei bilhete para a vida,
- Errei a porta do sentimento,
- Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
- Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
- Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
- Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
- Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
- Senão saber isto:
- Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
- Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,
- Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
- Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
- Acendo o cigarro para adiar a viagem,
- Para adiar todas as viagens.
- Para adiar o universo inteiro.
- Volta amanhã, realidade!
- Basta por hoje, gentes!
- Adia-te, presente absoluto!
- Mais vale não ser que ser assim.
- Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
- E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.
- Mas tenho que arrumar mala,
- Tenho por força que arrumar a mala,
- A mala.
- Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
- Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
- Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
- A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.
- Tenho que arrumar a mala de ser.
- Tenho que existir a arrumar malas.
- A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
- Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
- Sei só que tenho que arrumar a mala,
- E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
- E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.
- Ergo-me de repente todos os Césares.
- Vou definitivamente arrumar a mala.
- Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
- Hei de vê-la levar de aqui,
- Hei de existir independentemente dela.
- Grandes são os desertos e tudo é deserto,
- Salvo erro, naturalmente.
- Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!
- Mais vale arrumar a mala.
- Fim.
- (Álvaro de Campos)
Que é a proximidade, se ela, apesar de se contraírem as maiores extensões em menores intervalos, permanece ausente?
Que é a proximidade, se ela mesma se afasta por essa infatigável supressão das distâncias?
Que é a proximidade, se ao seu ficar ausente também não sobrevém a lonjura?
(Martin Heidegger, A Coisa)
À dona de seu encanto,
à bem-amada pudica,
Por quem se desvela tanto,
Por quem tanto se dedica,
Olhos lavados em pranto,
O seu amante suplica:
O que me darás, dozela,
Por preço do meu amor?
- Dou-te os meus olhos (disse ela),
Os meus olhos sem senhor...
- Ai não me fales assim!
Que uma esperança tão bela
Nunca será para mim!
O que medarás, donzela,
Por preço do meu amor?
- Dou-te meus lábios (disse ela),
Os meus lábios sem senhor...
- Ai não me enganes assim,
Sonho meu! Coisa tão bela
Nunca será para mim!
O que me dará, donzela,
Por preço de meu amor?
- Dou te as minhas mãos (disse ela),
As minhas mãos sem senhor
- Não me escarneças assim!
Bem sei que prenda tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
- Dou-te os meus peitos (disse ela),
Os meus peitos sem senhor...
- Não me tortures assim!
Mentes! Dádiva tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
- Minha rosa e minha vida...
Que por perdê-la perdida,
Me desfaleço de dor...
- Não me enlouqueças assim,
Vida minha! Flor tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela?...
- Deixas-me triste e sombria,
Cismo... Não atino o quê...
Dava-te quando podia...
Que queres mais que te dê?
Responde o moço destarte:
- Teu pensamento quero eu!
- Isso não... não posso dar-te...
Que há muito tempo ele é teu...
(Manuel Bandeira)
De Colombina o infantil borzeguim
Pierrot aperta a chorar de saudade.
O sonho passou. Traz magoado o rim,
Magoada a cabeça exposta à umidade.
Lavou o orvalho a alvaiade e o carmim.
A alva desponta. Dói-lhe a claridade
Nos olhos tristes. Que é dela?... Arlequim
Levou-a! e dobra o desejo à maldade
De Colombina.
O seu desencanto não tem um fim.
Pobre Pierrot! Não lhe queiras assim.
Que são teus amores? - Ingenuidade
E o gosto de buscar a própria dor.
Ela é de dois?... Pois aceita a metade!
Que essa metade é talvez todo o amor
De Colombina...
(Manuel Bandeira)
A Bela-Maria quando murcha amarela
O amor, se fora de seu arbusto,
cedo ou tarde amarela-se também.
O perfume que antes presente,
agora é distante.
A folhas – que verdes! – ainda brilham.
A vida segue, vivida.
Se o pouco perfumado capim-amargoso
não é a forte Citronela,
ao primeiro olhar, quem pode não baralhar?
Como arrancar do arbusto
a tintura dos frutos e a essência das flores?
Que amor é esse
se se recusa a ser tinta e essência?
Tem saudades que são de dose pouca,
tem outras que vem de monte,
mas as piores são as que não morrem.
Daquelas que não tem jeito de curar,
que o tempo passa, mas ela não.
Tendo vezes que até piora.
Agora, o que doí mesmo
é a saudade que se sente agora,
porque o que já é memória, já é.
Mas saudade de já, é coisa séria.
Saudade pode morrer ou dormir.
Quando morre é porque já dormiu demais
e quando dorme é porque um dia acorda.
O problema é que quando acorda, eita!,
vem mais forte que bicho bravo.
E saudade que acordou e foi agora,
faz a gente pensar demais,
dá vontade de matar logo
ou de não sentir nunca mais.
Aí, a dificuldade é de como matar a saudade,
Que pode ser espantando ou encontrando.
Embora os dois tenham um mesmo fim,
um é bom o outro é ruim.
Quando a certeza é pelo bom,
aí a saudade é quem te mata!





