Difícil
ser funcionário
Nesta
segunda-feira.
Eu te telefono,
Carlos
Pedindo
conselho.
Não é
lá fora o dia
Que me deixa
assim,
Cinemas,
avenidas,
E outros
não-fazeres.
É a dor
das coisas,
O luto desta
mesa;
É o
regimento proibindo
Assovios,
versos, flores.
Eu nunca
suspeitara
Tanta roupa
preta;
Tão
pouco essas palavras —
Funcionárias,
sem amor.
Carlos, há
uma máquina
Que nunca
escreve cartas;
Há uma
garrafa de tinta
Que nunca bebeu
álcool.
E os arquivos,
Carlos,
As caixas de
papéis:
Túmulos
para todos
Os tamanhos de
meu corpo.
Não me
sinto correto
De gravata de
cor,
E na cabeça
uma moça
Em forma de
lembrança
Não
encontro a palavra
Que diga a
esses móveis.
Se os pudesse
encarar...
Fazer seu nojo
meu...
Carlos, dessa
náusea
Como colher a
flor?
Eu te telefono,
Carlos,
Pedindo
conselho.
João Cabral de Melo Neto
Vai menino, vai!
Segue teu caminho.
Caminha essa jornada,
de uma vida planejada.
Sente: não há mais brisa,
a ausência será tua amiga.
Calma, calma!
Foi tudo organizado
nada há de dar errado
o vazio cantará pro teu sono
Surpresas não hão de aparecer
A vida será tranquila
Terá filhos, netos, bisnetos
Uuuufa, todos estarão a salvo:
as pernas serão finas!
Eunice Goldemberg
Barricada em frente à ocupação da reitoria da USP, campus Butantã - São Paulo/SP
http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2007/06/384177.shtml
http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2007/06/384188.shtml
Ocupação João Cândido - Itapecerica da Serra / SP
Bloqueio na Rodovia Régis Bittencourt - 25/04
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É de costume ouvir que na língua portuguesa há uma palavra de impossível tradução. Impossibilidade de reunir numa só palavra de outra língua a mesma sutileza e sensação.
Saudades
Saudades não é apenas sentir falta de alguém ou algo. É padecer e se entregar a essa ausência preenchendo o vazio deixado por ela.
Quando olho minha janela,
vejo através dela outras janelas,
outras vidas,
vidas que eu poderia viver,
silhuetas que talvez seria.
Das possibilidades?
Sou essa que agora escrevo.
Em cada janela que vejo,
de cada apartamento que olho,
me vejo em negativo.
E sou todas as possibilidades
que as janelas não podem ser,
que as pessoas de dentro delas não podem ser
e dos que passam e olham,
ou não passam e nem olham não podem ser.
Me chamo Maria.
Me lanço a todas elas.
Meu lenço, um brocado
meu rosto, um espelho
minha vida, Juliana.





